Entrevista com Belmer Negrillo

Belmer Negrillo

Belmer Negrillo – Senior User Experience Designer do eBay 

Junto com alguns amigos, estamos elaborando uma série de entrevistas com pessoas que trabalham na área de UX e afins. O objetivo é que eles respondam algumas perguntas sobre sua trajetória, o mercado de UX e compratilhasse sua experiência conosco. A primeira a sair do forno é com o Belmer Negrillo. Para quem não o conhece, Belmer é Senior User Experience Desinger do eBay, formado pela IVREA e que já trabalhou em uma das mais renomadas empresas da área, a IDEO. Segue a entrevista:

1. Como você decidiu estudar no IVREA? O quanto e como você considera que essa formação foi importante para sua carreira?

Provavelmente, uma resposta esperada para esta pergunta seria que eu pesquisei muito a profissão, comparei cursos e decidi por estudar em IVREA depois de um ponderado processo de avaliação. Mas a verdade é que foi uma oportunidade que me caiu no colo e, depois, saiu correndo!

Na época, eu trabalhava na DM9 e fiz amizade com uma produtora web, no Rio de Janeiro. Um dia, essa amiga me ligou e perguntou se eu aceitaria ser indicado para ganhar uma bolsa de estudos na Itália, em design interativo, patrocinado pela Globo.com. Despretenciosamente, eu falei: “claro!”. Depois de um longo processo de seleção, no qual eu estava competindo com mais 8 designers, eu fui escolhido. Fiquei super excitado com a oportunidade e comecei a pesquisar muito sobre essa nova profissão e sobre o que eu iria aprender na Itália. Mas, para meu desespero, um mês antes da inscrição oficial, tudo desmoronou e a bolsa havia sido cortada. O problema era que a bolsa era patrocinada pela Itália Telecom, que tinha na época uma joint venture com a Globo.com, e esse acordo foi quebrado por razão de desacordos comerciais. Fiquei sem chão, uma vez que minha cabeça estava totalmente focada nos preparativos…

Depois do choque inicial, resolvi não desistir e aplicar para o curso, pelo site mesmo. Sem pistolão. Passei por outro processo de seleção, desta vez internacional, e fui aprovado, novamente! Mas o problema agora era outro: não teria dinheiro para pagar a anuidade do curso. Minha única esperança era ganhar uma bolsa integral de estudo. E ganhei uma! Foi fantástico!

Sobre como Ivrea influenciou minha carreira, eu diria que foi uma mudança radical no rumo que eu estava seguindo. Além de ser o tiro de misericórdia na carreira de publicidade que eu havia decidido abandonar, me abriu várias portas em termos de contatos e exposição do meu trabalho. O curso me abriu a cabeça para as diferentes manifestações do User Experience Design, além do monitor e do mouse. Houve um intenso investimento em qualidade, com grandes nomes da área frequentemente sendo convidados para dar palestras, seminários e workshops.

Havia, também, um grande foco em colocar primeiro as idéias no papel como rascunho e testar os conceitos fazendo “fast-prototyping”, como, por exemplo, fazer um modelo do objeto ou interface com papelão e post-it, fazer uma simulação da experiência com colegas usando vídeo (sem perder tempo com edição), ou ir ao laboratório e usar um “prototyping board” para ver como algo poderia funcionar.

O fato de ser uma experiência no exterior e, ao mesmo tempo, multinacional (os alunos e os professores eram de vários lugares do mundo, e apesar de estarmos na Itália, o curso era ministrado em inglês) foi um fator importante no meu amadurecimento professional e pessoal. Desmitificou muito do que acreditava do Brasil como também do que admirava do exterior. Validou alguns esteriótipos e desmintiu muitos preconceitos. As diferenças culturais dos estudantes, às vezes, tornavam o concenso muito difícil e criavam conflitos nos métodos de trabalho, mas frequentemente resultavam num projeto rico, inovador e multifacetado.

2. Como você foi trabalhar na IDEO?

Trabalhar na IDEO foi ótimo. De certo modo, pode-se dizer que o projeto de IVREA tinha como uma das intenções desenvolver mais profissionais para empresas como IDEO, que demandam pessoas, como eles definem, em forma de “T”. Isto é, pessoas que tem uma grande variedade de interesses, habilidades e hobbies, mesmo que superficiais, os quais fornecem um importante repertório para idéias (a parte horizontal do “T”) e ao mesmo tempo são pessoas aprofundadas em algo específico, que corresponde ao foco de trabalho (a parte vertical do “T”).

Na minha opinião, o melhor da IDEO, que de certo modo é o que praticávamos em IVREA, é o processo de design. Lá, o designer participa de fato do entendimento do problema (ao invés de receber um relatório pronto e ter que produzir algo). O designer vai a campo conhecer as pessoas que vão usar o produto ou serviço, entrevista, ouve, se envolve emocionalmente com o problema e com as necessidades reais que as pessoas expressam. Aprende com os detalhes que dificilmente vão para um relatório. Depois da pesquisa, se faz uma síntese qualitativa e quantitativa do que se aprendeu, baseados nas necessidades e nos comportamentos específicos dos usuários, e se produz uns poucos princípios-chave de design que vão guiar o resto do processo, principalmente, filtrando as idéias que devem processeguir ou não. Muitas vezes se descobre que a solução não é desenhar algo já existente de modo melhor, mas pensar em uma outra abordagem para resolver o problema que as pessoas querem resolver.

Durante meu tempo na IDEO, tive a oportunidade de trabalhar em grandes projetos para Microsoft, Nike e HP. Apesar do tamanho dos projetos, os times de trabalho eram pequenos, de 3 a 6 pessoas, com membros com qualidades complementares. Trabalhávamos juntos no mesmo espaço, uma sala de projeto. Trocas de idéias e discussão eram constantes, e os resultados geralmente eram, de fato, inovadores.

3. Qual é a sua função e quais são as suas atividades no eBay?

No eBay, trabalho como Senior User Experience Designer. Minha função na empresa difere da descrição usual da profissão na empresa porque eu não fui contratado porque havia uma posição aberta.

Antes de trabalhar lá, eu trabalhava numa pequena empresa, uma startup, chamada VUVOX. Nessa empresa, com um time de 5 pessoas, nós desenvolvemos uma série de ferramentas para criação de apresentações em Flash, com aparência profissional e utilizando media de diversas origens, como Flickr, Picasa, RSS feeds, YouTube, ou upload. O nosso produto principal se chama Collage, que é um ótimo aplicativo online para contar estórias ou apenas mostrar fotos e videos de um modo interativo. O eBay resolveu nos comprar, em Junho deste ano, para incrementar o uso de Rich Media pelos seus usuários e, também, no site em geral. Nosso pequeno time foi mantido junto formando um departamento com certa independência dentro da divisão UED do eBay.

Nos projetos, eu geralmente sou responsável pelo desenvolvimento do conceito geral, baseado em pesquisas com usuários e em oportunidades no mercado. Sou, também, responsáve pelo desenho das funcionalidades específicas, pelo desenho dos principais workflows e pela direção de arte (veja bem, não sou responsável pelo arte atual do site!). Este acúmulo de funções não é comum na empresa e acontece, principalmente, porque ainda mantemos um pouco do espírito de startup dentro do ambiente corporativo. Eu trabalho próximo com engenheiros de software, que de fato vão produzir os protótipos. Nós, designer interativos, funcionamos como uma ponte entre os objetivos da empresa, as necessidades dos usuários e o desenvolvimento técnico das soluções, e por isso precisamos saber um pouco de tudo.

4. Que tipo de projeto você desenvolve lá dentro?

Atualmente, estou desenvolvendo dois projetos: um para eBay Motors, no qual entusiastas de carros podem criar colagems para contar estórias sobre seus carros e assim aumentar a visibilidade ou o valor final da venda; outro projeto é um estudo sobre a possibilidade de utilizar nossa tecnologia para a criação, por parte dos usuários, de guias de instalação de partes automotivas. Há outros projetos, mas ainda são confidenciais.

5. Como é estruturada a equipe do eBay?

O eBay é uma empresa gigantesca, e tudo nela tem proporções enormes. São 84 milhões de usuários ativos! A árvore organizacional é infinita. Nosso pequeno departamento, chamado “Rich Media Center of Excellence” possui dois designers, dois engenheiros de software e um diretor. Nós somos parte do User Experience Design (UED) que, por sua vez, é parte da divisão chamada Market Places. 

6. Como vocês envolvem os usuários no processo?

Ainda sou novo na empresa para afirmar, com certeza, como esse processo funciona. Mas pela minha experiência, até agora, deixa um pouco a desejar. Existe um departamento encarregado de fazer as pesquisas com usuários e de testar interfaces, mas geralmente não envolvem o designer nesse processo. Para o projeto de colagens, do eBay Motors, tivemos etapas de testes antes de lançar publicamente o serviço. Primeiro, testamos um protótipo internamente, com usuários que também são funcionários. Depois, fizemos outro teste com 7 usuários, a cada etapa recebendo feedback e refinando o design. O último teste foi com 5000 pessoas, de um grupo seleto de usuários que eles podem filtrar através da análise de dados. Mas, com excessão do teste interno, não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente os usuários. 

7. Qual o objetivo do User Experience Designer dentro do eBay?

Está é uma pergunta muito relevante neste momento. O eBay foi, por muitos anos, uma empresa com maior foco na tecnologia do que na experiência do serviço. Com a competição mais acirrada por parte da Amazon, pela disputa de fatias do mercado, o eBay tem que mudar rapidamente para, no mínimo, manter a sua posição.

Atualmente, vejo o User Experience Designer dentro do eBay como um agente de mudança, tentando trazer as soluções e a inovação que, tanto os usuários, como também os investidores de Wall Street, requerem. Existe uma considerável pressão para não somente alcançar a concorrência em termos de facilidade de uso, conveniência e recursos oferecidos, mas para irmos além e já começarmos a pensar o eBay daqui a 5-10 anos. Essa foi uma das razões pela a qual fomos mantidos como um time integrado, dentro do eBay. Eles compraram não apenas nosso produto, mas principalmente os cinco profissionais que conseguiram montar um produto inovador com recursos bem limitados e em curto prazo.

8. Como é medido o desempenho da área de design?

Uma comparação entre o que se deseja numa startup e o que se deseja num ambiente corporativo como o eBay é um bom começo para responder essa pergunta. No mundo web startup, o desempenho é medido pela inovação disruptiva, que causa furor, barulho e atrai vários usuários para o seu site. Caso um erro de estratédia seja cometido, basta reconhê-lo, rapidamente, e mudar o barco de rumo. No mundo de grandes empresas – corporativo – há muito o que se perder, o que influencia a disposição para se tomar riscos. Por isso, o design neste ambiente procura trazer inovação de um modo mais evolutivo, mantendo ao máximo o que já se conquistou.

Um pequeno exemplo na escala do eBay: se um novo layout muda a posição de um botão importante como “comprar” e as pessoas têm mais dificuldade de encontrar esse botão, o impacto no faturamento da empresa pode cair em U$500.000,00 por dia! E aí, investidores se irritam e fazem a cotação das ações caírem. Do mesmo modo, um design mais eficiente pode ter o efeito de aumentar o faturamento, sem grandes mudanças na tecnologia.

Uma coisa que está mudando na empresa, agora, é a frequência da avaliação interna. Antes, os objetivos eram trimestrais, o que causava uma miopia na visão do destino da empresa. Agora são anuais, o que permite que diretores e gerentes possam focar em algo que não terá retorno em curto prazo, mas que pode posicionar a empresa melhor no futuro. Há também um movimento para valorizar não somente desempenho baseado no retorno financeiro, mas, também, na satisfação das pessoas e melhoria da imagem da marca.

9. Qual o perfil dos profissionais que trabalham com você?

Tive, até agora, pouca oportunidade de trabalhar com profissionais fora do pequeno departamento que faço parte, por isso minha impressão é meio superficial. Mas, me parece que possuem uma formação mais técnica – como engenharia –, do que artística – como design gráfico. 

10. O que você recomendaria para quem está começando na área de design de interação e user experience?

Existem muitos profissionais nesta área, pelo menos aqui na Bay Area de San Francisco. Mas poucos, realmente, têm uma postura de questionar os paradigmas da profissão e de tentar soluções fora da cartilha de práticas bem sucedidas de interaction design.

Na minha opinião, se todas as soluções são baseadas num número limitado de alternativas, logo um software poderá fazer esse trabalho. Por isso, o profissional de design tem que estar sempre atento ao que há de mais recente sendo feito na área, e também fora da área. Várias idéias surgem quando se observa tendências culturais, novas possibilidades tecnológicas e integracão de serviços (mashups). Novas experiências e conceitos não surgem do nada, do “gênio superior” do designer. É necessário alimentar o cérebro com referências das mais diversas áreas do conhecimento e deixar as conexões fluírem. E, mais importante, é necessário observar, e observar e observar pessoas, tentar entender porque o ser humano faz coisas de um jeito e não de outro. Aí você nunca poderá ser substituído por um software!

Outra recomendação é aplicar de fato o processo de design da IDEO que eu descrevi, acima. O envolvimento do designer na pesquisa com usuários, antes de fazer qualquer rascunho, é essencial para que se crie soluções que são de fato úteis às pessoas (não esqueça que diversão também é útil). Conversar com as pessoas cria uma conexão emocional com o problema delas. Ler um relatório de pesquisa qualitativo, não. Trabalhe em grupo. Aprenda com quem tem mais experiência e ensine quem sabe menos do que você. Competição é saudável, mas cooperação traz uma gratificação mais duradoura.

Como última recomendação, lembre-se que fazer design é, basicamente, tomar decisões. Mas qualquer pessoa pode tomar decisões. Logo, o que diferencia um designer em geral de uma pessoa de outra profissão é o conhecimento e o discernimento para tomar as decisões mais apropriadas dentro das restrições do problema. Mas para que o designer não pareça um ditador de conceitos e para que seja respeitado e aceito, é extremamente necessário saber comunicar o porquê das decisões: saber comunicar idéias é quase metade do meu trabalho. Seja para o grupo de trabalho, seja para os usuários para os quais você está desenhando, seja para os engenheiros que vão produzir o produto, seja para os alto escalões que querem saber como a sua idéia vai impactar o negócio e se vale a pena investir no que você propõe. Design não é arte e não é uma ciência exata. É arte-aplicada com objetivos concretos. E saber posicionar ou adaptar a sua criatividade dentro destes objetivos é uma das tarefas mais importantes do designer. 

Conheça mais do trabalho de Belmer Negrillo: 

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5 Responses to “Entrevista com Belmer Negrillo”

  1. [...] Outubro 30, 2008 · Nenhum Comentário Junto com alguns amigos, estamos elaborando uma série de entrevistas com pessoas que trabalham na área de UX e afins. O objetivo é que eles respondam algumas perguntas sobre sua trajetória, o mercado de UX e compratilhasse sua experiência conosco. A primeira a sair do forno é com o Belmer Negrillo. Para quem não o conhece, Belmer é Senior User Experience Desinger do eBay, formado pela IVREA e que já trabalhou em uma das mais renomadas empresas da área, a IDEO. Leia a entrevista completa neste link. [...]

  2. Debora says:

    Gostei da entrevista! Ela poderia estar no formato de áudio também, esse ping-pongue seria bem bacana via podcast!

  3. admin says:

    Ei Debora, seria bacana mesmo. O grande problema é o tempo para fazer um podcast. Tanto de quem entrevista, quanto de quem responde. E algumas respostas precisam de aprovação por algum superior, para poder ser publicada. Optamos pela entrevista por email pela praticidade. Estamos elaborando novas entrevistas. Fique atenta a novidades. Abrs!

  4. Mauro Ongarelli says:

    Gostei muito da entrevista. Logo se percebe a força do trabalho de Belmer.
    Abs

  5. Daniel says:

    Nossa, entrevista muito boa! Hoje me encontro em uma empresa ‘Start up’ e me vejo mais ou menos na situação dele na Vuvox, desenvolvendo funções um pouco distinta do meu cargo como DA, mas que agregam positivamente para mim e à empresa.
    Enfim, valeu a entrevista, tirou algumas dúvidas que eu tinha e também confirmação da minha postura a empresa hoje.

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